ENTREVISTA DO MESTRE ODILON

ENTREVISTA DO MESTRE ODILON

 Odilon conta por que saiu da Grande Rio

Afastado dos desfiles há dois anos, ex-diretor de bateria afirma: "Pessoas da direção da harmonia queriam me pilhar"


Considerado por muitos o maior mestre de bateria de todos os tempos, Odilon Costa vai completar dois anos fora do carnaval em 2011. Mas, engana-se quem pensa que, o Maestro Odilon, como é carinhosamente chamado, está descontente. Atualmente dando aula no Projeto Batucadas Brasileiras, localizado no Centro do Rio, Odilon fala, entre outros temas, da saída conturbada da Grande Rio, das passagens por Salgueiro e Beija Flor, além de revelar certas preocupações com os rumos tomados pelas escolas de samba.

Rio Carnaval 2011: Como foi que se interessou pelo samba? Conte o início de sua história.

OdilonCosta: Quando eu era pequeno, gostava muito de programa de samba, ficava fascinado quando via o João Roberto Kelly, me interessava muito. Aí encontrei com um amigo que era da União da Ilha e disse pra ele que queria ir lá. Ele me levou e fui aprendendo a tocar. No início levei muito cascudo, os mais antigos não gostavam de tocar perto dos mais novos e nem me ensinaram, aprendi com a prática.

RC: Muitos o consideram o maior mestre de bateria de todos os tempos. Como você se coloca na história do carnaval?
OC: O maior pra mim foi o Mestre André, ele que inventou a paradinha, era um gênio. Eu peguei a mesma estrada, mas traçei o meu caminho. Implementei coisas que todos copiam. O bom é mesmo para ser copiado, mas o melhor foi o Mestre André, estaria maluco senão dissesse isso.

RC: Quem, dentro da União da Ilha, serviu de referência para você?
OC: Na Ilha tinha muita gente. Tinha o Jagunço, um pouco mais velho do que eu, ele tem uma qualidade impressionante, toca com o Jorge Aragão. Fora outros, vários mestres e ritmistas.

RC: Você foi um dos primeiros diretores de bateria a exigir qualidade musical dos seus ritmistas. Na suas baterias quem não soubesse tocar não desfilava. Acha que falta essa atitude de alguns mestres?
OC: Falta sim, falta coragem, mas muitas vezes o próprio mestre não tem condições de avaliar. Para ser mestre de bateria é bom saber tocar todos os instrumentos. Não é só falar, tem que demonstrar na prática o que você quer, assim o ritmista te respeita.

RC: Como você vê o perfil do ritmista hoje, mudou muito desde a época que você começou no samba? O ritmista deveria ser remunerado?
OC: Mudou muito, o ritmista era mais ritmo, tinha mais prazer em tocar, hoje vejo menos. Alguns ritmistas mereciam ganhar até um milhão de reais, outros nem um centavo. Mas é complicado você ter que dar dinheiro a ritmista, hoje está bom, amanhã ele sempre vai querer mais. Pra tocar tem que ter paixão.

RC: Em mais de 40 anos no samba, qual desfile mais o marcou?
OC: Todos os anos são especiais, mas um é inesquecível. No meu segundo ano como diretor auxiliar na União da Ilha, em 1985, desfilei de terno e descalço, não chegou o sapato. Mesmo assim, ganhamos o Estandarte de Ouro.

RC: De todas as escolas em que passou, onde encontrou mais dificuldade para implementar a sua filosofia de trabalho?
OC: Sem dúvidas na Beija Flor. Primeiro pela minha cor, segundo porque os ritmistas eram muito amigos do meu antecessor, o Mestre Pelé, que por sinal é muito gente boa. Mas, com o tempo, eles viram que eu não era de bobeira. Um deles chegou a me dizer, depois, quando eles tornaram-se meus amigos, que ficava com água na boca quando me via pegar no instrumento. Aí é que entra o lance do mestre dominar todos os instrumentos. Cheguei lá e mudei tudo que estava errado,batida de caixa, tamborim e etc.

RC: Você acha que um Diretor de Harmonia deve ter autonomia para aprovar e vetar bossas?
OC: Pra mim quem manda na avenida é o Diretor de Harmonia, mas ele não pode impor nada, tem que conversar. Se chegar pra mim e dizer que não quer a convenção, vou querer saber o porquê. Se me convencer tudo bem.

RC: Já teve problemas com alguém por isso?
OC: Sim, o pior deles foi com um cara que hoje é muito meu amigo, o Laíla. Estamos sempre fazendo comemorações juntos, mas não me chame para trabalhar com ele, falo isso na cara dele, pois gosto muito dele como pessoa. Quando ele quis colocar o andamento na minha bateria resolvi sair, se querem isso não precisariam mais de mim.

RC: E o seu trabalho no Salgueiro?
OC: Fiquei pouco tempo, o Mestre Louro me falou que queria a minha ajuda, aceitei, pois ele era meu amigo. Mas percebi umas sacanagens e pulei fora.

RC: Queriam te colocar no lugar dele?
OC: Sim, não gosto desse tipo de coisa.

RC: Explique melhor o seu desligamento da Grande Rio. Na época, muitas informações desencontradas foram publicadas. O que te tirou da Tricolor de Caxias?
OC: Tive alguns problemas na Grande Rio, o maior deles foi com relação ao andamento. Pessoas da direção da harmonia queriam me pilhar, mandavam o cavaquinho correr, o surdo marcar rápido antes da bateria entrar, isso me deixou chateado. Chegou ao ponto de um diretor de harmonia virar pro outro e perguntar de que lado ele estava, um racha que prejudicava a escola. O presidente também falou de maneira grosseira com um dos meus diretores de bateria e eu não gostei, fui cobrar satisfações, assumi a culpa pelo acontecimento, isso desgastou a relação. Tive problema também com um outro diretor de bateria meu, que eu levei para lá após ser expulso de outra escola. O cara estava fazendo fofoca com a diretoria. Mas, apesar disso tudo, não guardo mágoa, o presidente quando me encontra me cumprimenta normalmente, já até me disseram que eram felizes e não sabiam.

RC: De lá pra cá você deve ter recebido muitas propostas, conte-nos sobre elas.
OC: Recebi e recebo muitas sim, mas estou cansado. Hoje ganho menos mas não me estresso. Existe muita gente que se acha no mundo do samba, mas não sabe é nada. Por isso que muita gente boa larga o samba e vai virar evangélico, as pessoas se cansam de tanta palhaçada. Se fosse formar uma escola de samba com as pessoas que estão fora, seria uma baita escola, tirava dez em tudo! Não gostaria de citar o nome das escolas para não acharem que eu estou cavando, as vezes até evito de visitar uma escola para não falarem besteira.

RC: Mas sente falta da rotina do samba? Não pensa em voltar, talvez como diretor musical?
OC: Diretor Musical até seria uma boa, mas não quero trabalhar com o andamento que se trabalha hoje. Teria que ter autonomia. As passistas não conseguem sambar direito, está muito rápido, estamos ultrapassando o Frevo.

RC: Fale sobre o trabalho das baterias no último carnaval, independente de andamento.
OC: Eu sinceramente esperava mais, está muito igual. Gostaria de ver um outro estilo.É preciso dar continuidade, teve o Mestre André, o Odilon e agora tem que vir outro, trilhar seu próprio caminho, assim como eu fiz.

RC: O que acha dos mestres de bateria que, independente da escola, só trabalham um determinado ritmo, geralmente oriundo da escola de origem deles? É vaidade ou falta de capacidade?
OC: Essa palavra, vaidade, não deveria existir no samba, mas infelizmente não é o que acontece. Tem muito da vaidade sim, mas tem também da falta de respeito com a agremiação. Não se pode entrar em determinadas baterias tradicionais e mudar tudo. Não posso chegar na Mocidade e mudar a batida caixa. Na Mangueira, não posso botar um surdo de segunda. Isso não deve acontecer, é importante o mestre de bateria ser dinâmico.

RC: Você acha correto músicos de formação erudita serem jurados de bateria?
OC: Não, pra mim quem tem que julgar bateria é músico popular, que conheça samba, que toque instrumentos de bateria de escola de samba. O cara tem que entender o que é fazer uma bossa bem feita na Avenida e se empolgar com isso.O ritmista é um ser humano, movido pela paixão de estar ali. Não se pode tirar ponto por algumas coisas que se tira hoje.

RC: E o uso do Metrônomo?
OC: Isso é ridículo, metrônomo só pode ser usado para música europeia, para o samba não! Avaliar em cima do aparelho é um absurdo.

RC: Tem algo novo que gostaria de trabalhar numa bateria?
OC: Sim estou bolando o ritmo do futuro. São quatro batidas de caixa diferentes, suingue puro, uma coisa linda, mas que requer muito ensaio.

RC: Dos novos mestres, quem te enche os olhos?
OC: Tem gente boa chegando aí. O legal é ver a humildade dessa garotada, me chamam para assistir e avaliar. Sabem que eu falo a verdade, não faço média. O caminho deles é esse, tem que estar sempre com as sandálias da humildade.

 

 


RC: O que acha das baterias de São Paulo?
OC: Lá tem ótimos trabalhos: Mestre Zoinho, Mestre Adamastor, Mestre Sombra, fazem um ritmo muito bom. Venho dando palestras para os jurados de bateria de São Paulo, dos grupos de acesso do Rio, e de outros estados também, eles são interessados, tem muita gente boa em São Paulo.

RC: E o seu novo livro ‘ Do Mestre André ao Mestre Odilon’ quando sai, o que vai tratar nele?
OC: Estou me aprofundando nas pesquisas, vou falar sobre os antigos mestres, valorizar quem não é muito lembrado, o Andrezinho, filho do Mestre André, vai me ajudar. Como aperitivo, em janeiro vou lançar a segunda edição do meu primeiro livro, o ‘Batuque Carioca’, a galera vai gostar.